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Homenagem a mulheres sindicalistas

Obrigado!

15/04/2014

Pedro Gabriel

 

O agradecimento sentido marcou o tributo promovido pela Comissão de Mulheres da UGT a um grupo de sindicalistas do sexo feminino. A cerimónia teve o simbolismo de se realizar na casa da democracia

 

Foram pessoas que dedicaram grande parte da sua vida ao sindicalismo, lutando pela igualdade de direitos entre homens e mulheres na altura em que a democracia dava os primeiros passos no pós-25 de abril. No âmbito das comemorações do Dia Internacional da Mulher, a Comissão de Mulheres da UGT decidiu homenagear um conjunto de sindicalistas do sexo feminino. No dia 12 de março, precisamente na semana da Mulher, o auditório do edifício novo da Assembleia da República recebeu várias figuras,
da política ao sindicalismo, para homenagearem Wanda Guimarães, Manuela Teixeira, Elisa Damião, Maria do Carmo Fernandes, Raquel Noronha e, a título póstumo, Alice Martins e Ricardina Guerreiro. Uma solenidade com especial importância para a Febase, já que duas das distinguidas estiveram na sua criação.
A cerimónia contou ainda com um painel de oradores composto pelos deputados Sónia Fertuzinhos e Marcos Perestrello, do PS, Pedro Roque e Laura Esperança, do PSD.
A primeira palavra de agradecimento surgiu através de Lina Lopes, para quem a "luta da mulher para ter espaço nos sindicatos é a sua própria batalha de afirmação na sociedade".
A presidente da Comissão de Mulheres afirmou ainda que sendo a República representada por uma mulher fazia todo o sentido que a homenagem ocorresse na Assembleia.
Falando sobre a questão da igualdade salarial, Lina Lopes referiu que, nos dias de hoje, as mulheres trabalham mais 65 dias do que os homens, ganhando menos 18%. Pelo combate às desigualdades e descriminação, deixou um profundo agradecimento às homenageadas.
 
Gratidão
 
A secretária-geral adjunta da UGT, Paula Bernardo, aproveitou para saudar a Comissão de Mulheres pelo trabalho que tem vindo a realizar. "Esta iniciativa homenageia a luta persistente destas mulheres, que ousaram defender melhores condições de trabalho e direitos iguais numa sociedade predominantemente masculina, contribuindo para que a UGT e os seus sindicatos sejam hoje reconhecidos como estruturas fundamentais na promoção da igualdade de oportunidades".
Já Dina Carvalho, secretária-geral adjunta, afirmou que as mulheres são muito pouco valorizadas, embora tenham sido feitos muitos progressos desde o 25 de abril. "Os homens adquiriram a liberdade, as mulheres adquiriram a identidade. As nossas homenageadas tiveram uma participação ativa na imagem e na melhoria das condições. No entanto, o caminho a percorrer ainda é muito".
 
Dirigente carismática
 
A primeira homenageada foi Manuela Teixeira, que não pôde estar presente na cerimónia. Coube a Manuela Felício a honra de fazer a apresentação, afirmando que os professores devem muito a Manuela Teixeira por "uma vida dedicada ao ensino, ao movimento sindical da área coletiva, à melhoria das condições do trabalho e na dignificação da profissão docente".
Primeira presidente do sexo feminino da UGT, foi secretária-geral da Federação Nacional da Educação (FNE) e representou durante vários anos o Sindicato dos Professores da Zona Norte (SPZN). "Manuela Teixeira foi uma dirigente carismática, contribuindo para fazer da Federação e da União instituições de sucesso, sendo reconhecida não apenas pela sua capacidade negocial mas também pela sua filosofia reivindicativa. Em todos os cargos que ocupou, fê-lo com uma grande competência, é por isso um exemplo para todas e para todos nós", referiu Manuela Felício.
Maria José Rangel representou Manuela Teixeira na cerimónia e agradeceu em nome da homenageada "todas as referências feitas quer ao seu trabalho quer à sua personalidade".
 
Uma ativista determinada
 
Wanda Guimarães começou a sua atividade sindical ainda antes do 25 de abril de 1974, no Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas (SBSI). Subscreveu, em 1978, a Carta Aberta, documento que deu origem à formação da UGT, onde foi dirigente durante 20 anos. Em 1985 constituiu o Grupo de Ação de Mulheres (GRAM) do SBSI. No entanto, a sua influência não se esgota nestes cargos, como referiu Fátima Lopes ao destacar o papel da homenageada na negociação coletiva. "Imprimiu uma dinâmica que hoje se sente e que é necessário
que venha a ter mais presença de mulheres. (...) É uma ativista, uma mulher determinada e uma defensora intransigente da luta e da justiça social".
Wanda Guimarães mostrou-se muito feliz com a distinção, revelando que "é a prova de que o sindicalismo no feminino cria laços muito fortes que perduram ao longo dos anos".
A homenageada recuou até 1983 para explicar o processo de criação do Documento sobre a Igualdade de Oportunidades das Mulheres Trabalhadoras, terminando a sua intervenção com a frase que encerra o documento: "Não se trata de substituir uma hegemonia masculina por uma feminina mas de conseguir uma possibilidade igual para todos de determinar o seu futuro coletivo e individual e uma participação igualitária nas estruturas do poder. Esta situação dialética necessita e criará novas relações humanas, novas estruturas
sociais, uma sociedade sem papéis determinados em função do sexo".
 
Presença feminina essencial
 
Secretária-geral do Sindicato de Escritórios de Setúbal, deputada e eurodeputada, Elisa Damião foi eleita em 1984 para o Secretariado Executivo da UGT e tornou-se na primeira coordenadora da Comissão de Mulheres. Por sua iniciativa organizou-se o primeiro Encontro Nacional das Mulheres Trabalhadoras. "Uma mulher de coragem, que sem medo enfrentou agruras e desafios", descreveu Conceição Pinto na apresentação da homenageada.
Elisa Damião começou por arrancar sorrisos na plateia, ao afirmar que foi graças às "picardias" com Wanda Guimarães que se conseguiu afirmar uma estrutura. "O nosso objetivo principal era combater as desigualdades salariais, que rondavam os 30%".
A homenageada fez notar que a presença das mulheres nos sindicatos é essencial para se alcançar o equilíbrio. "Há muitas situações em que não nos podemos escudar no nosso papel na família. Temos a família que constituímos e que soubemos ou não mudar, portanto é preciso mudar em várias frentes".
 
Sindicato democrático
 
Maria do Carmo Fernandes entrou no mundo sindical em 1977 como membro do então Sindicato dos Técnicos Paramédicos, afeto à CGTP. Viria a demitir-se dois anos depois, em desacordo com o controlo sindical do PCP. Ingressa na UGT, participando no Congresso de 1979 como sócia independente. Posteriormente, dá início à fundação do Sindicato dos Técnicos Superiores de Diagnóstico Terapêutico, onde viria a ser secretária-geral de 1983 a 1999. Fez ainda parte do Secretariado Executivo da UGT, de 1988 a 2008.
Dina Carvalho referiu que Maria do Carmo Fernandes "sempre fez questão de levar o grupo profissional para a frente, demonstrando as suas capacidades e assumindo a sua importância a nível da saúde e dos sindicatos".
Por seu turno, Maria do Carmo Fernandes confessou ter saído do primeiro sindicato porque a mudança por dentro era "completamente impossível". Entrou na UGT com o objetivo de criar um sindicato nacional e democrático na sua área profissional. "Procurei dar uma dignidade à classe profissional a que pertencia", referiu, deixando uma palavra de agradecimento a Leonor Beleza e Maria de Belém Roseira, "dois grandes avanços para a dignificação dos profissionais que representamos".
A homenageada considera que houve um grande retrocesso na evolução da mulher. "Como é que uma mulher pode pensar em ter filhos se o seu companheiro está no desemprego ou tem um emprego precário? E ela própria não pode realmente exigir nada porque senão também fica no desemprego".
 
De alma e coração
 
Foi visivelmente emocionada que Raquel Noronha proferiu algumas palavras. Revelando ter sido "um choque tremendo" este tributo, a homenageada acrescentou que se dedicou sempre de alma e coração ao que acreditava e às pessoas com quem se cruzou, mas nunca pensou ter "tanto mérito".
Antes, Catarina Marques tinha feito a respetiva apresentação, adjetivando Raquel Noronha, dirigente da UGT de 1983 a 2008, como "uma mulher de valores, ideias firmes, convicções e de palavra, que "lutou sempre pela igualdade de direitos e de oportunidades".
 
Momento emotivo
 
O momento em que se prestou homenagem a Alice Martins e Ricardina Guerreiro, já desaparecidas, foi o que mais emocionou a audiência.
Coube a Paula Viseu dizer umas palavras sobre Alice Martins, dirigente do SBSI com responsabilidades em vários pelouros ao longo dos anos.
A atual coordenadora do GRAM referiu que "a preocupação [de Alice Martins] era a igualdade dos direitos das mulheres e preocupou-se sempre em perceber o que se passava nas fábricas".
Para Paula Viseu, Alice Martins "era uma pessoa sem protagonismo mas com muita tenacidade a defender os direitos dos trabalhadores. Era uma mulher muito sensata", confessou, visivelmente emocionada.
Os dois filhos de Alice Martins, Nuno e Manuela, e a irmã, Fernanda, marcaram presença nesta homenagem. "Este é um momento de dor mas também de alegria e gratidão, a minha irmã foi extraordinária a representar as mulheres e os trabalhadores", confidenciou Fernanda perante um misto de lágrimas e aplausos oriundos da plateia.
A mesma emoção que se sentiu quando se homenageou Ricardina Guerreiro, dirigente da UGT de 2000 a 2013. Francisco Pinto, secretário-geral do SINAPE, escreveu uma mensagem lida perante o auditório, na qual destacou o percurso profissional de Ricardina Guerreiro e a sua luta na defesa dos trabalhadores.
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Debate com deputados: É urgente corrigir desigualdades
 
Deputados do PS e do PSD participaram no colóquio "O Papel das mulheres sindicalistas no passado e no futuro". Foram unânimes em apontar o caminho da paridade
 
Precedendo a homenagem, realizou-se um debate subordinado ao tema "O Papel das mulheres sindicalistas no passado e no futuro". Coube a Pedro Roque, que já esteve ligado à UGT, abrir o painel de oradores, destacando que esta iniciativa é "inteiramente justa porque procura não só homenagear as pessoas mas aquilo que elas simbolizam".
O deputado afirmou que esta é uma luta recente em Portugal, já que o 25 de abril de 1974 trouxe um conjunto de direitos, liberdades e garantias a todos os cidadãos, mas com especial destaque para as mulheres, a quem outros direitos eram sonegados.
Pedro Roque alertou para a questão da igualdade salarial, "que se deseja chegue o mais depressa possível", já que em seu entender "é algo que nos envergonha enquanto País desenvolvido e democrático".
Antes de concluir, o deputado realçou três das homenageadas, com quem trabalhou diretamente: Manuela Teixeira, "uma grande presidente da UGT, que dignificou bastante o movimento sindical"; Wanda Guimarães, "que tem uma personalidade forte e um trabalho vincado não só nas questões da igualdade mas em tudo aquilo em que se empenha em termos da sua atividade sindical"; e Maria do Carmo Fernandes, "que procurou defender sempre a organização que representava e os interesses dos técnicos superiores de diagnóstico terapêutico".
 
Sociedade mais desenvolvida
 
Sónia Fertuzinhos dividiu a sua intervenção em cinco pontos. O primeiro serviu para destacar o papel destas sindicalistas: as mulheres veem nas homenageadas "a simbologia de uma luta, de uma ambição, (…) de terem tido a coragem de defender ideais que estavam à frente do tempo", disse a deputada do PS.
No seu segundo ponto, Sónia Fertuzinhos falou do papel do sindicalismo no contexto da crise, afirmando que grande parte do emprego feminino está presente em setores de trabalho intensivo, com condições muito difíceis e que dependem muito de um diálogo social forte.
O complicado momento que se vive no mundo do trabalho e na forma como as relações laborais evoluem também foi abordado. No entendimento de Sónia Fertuzinhos, muitos dos setores onde as mulheres trabalham dependem da força da negociação coletiva, para elas próprias "conseguirem concretizar os seus direitos e melhorar muitas das suas condições de trabalho".
O quarto ponto que a deputada apresentou divide-se em três áreas chave para o trabalho dos sindicatos: a desigualdade salarial – "se hoje temos cada vez mais mulheres trabalhadoras com mais qualificações, a verdade é que a desigualdade salarial é maior nas mulheres mais qualificadas. É um exemplo claro dos desafios que ainda temos de lutar para alterar"; a natalidade aliada ao aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho; e a situação das mulheres nos vários quadrantes da sociedade.
Sónia Fertuzinhos terminou realçando o contributo importante das homenageadas. "Estas mulheres são maiores que elas próprias (…) e homenageá-las é afirmarmos que a defesa da igualdade entre mulheres e homens é condição de desenvolvimento".
 
Exemplo de sucesso
 
Laura Esperança citou o seu próprio exemplo para destacar como a aposta nas mulheres para cargos superiores dá resultado. A deputada do PSD explicou que, aos 18 anos, aceitou dar continuidade à empresa dos pais. Como responsável pelos Recursos Humanos, foi "o rosto de todas aquelas companheiras de trabalho, que satisfeitas as suas necessidades, se percebia que eram mais felizes, tinham famílias mais estáveis e podiam contribuir com o seu trabalho mais ativamente".
Para a deputada, "era importante fazer com que as empresas crescessem e que as pessoas pudessem ser motivadas e gostassem de trabalhar".
Em relação à homenagem, Laura Esperança afirmou que "estarmos a reconhecer percursos de pessoas que lutaram em condições muitas vezes adversas dá-nos alento para o futuro".
 
Estruturas progressistas
 
Já Marcos Perestrello focou a sua intervenção na desigualdade entre homens e mulheres e deu o exemplo de dois deputados, um do sexo masculino e outro do feminino, que na mesma infração que cometeram (conduzir com uma taxa de alcoolemia superior ao limite) receberam tratamento diferenciado, quer pela opinião pública, quer pela própria comunicação social.
O deputado do PS considera que a sociedade olha de maneira diferente para as mulheres em situações em que o comportamento é idêntico ao dos homens. "As mulheres são sempre tratadas onde quer que estejam como uma minoria, apesar de serem a maioria".
Para Marcos Perestrello, a maior desigualdade entre homens e mulheres concentra-se no acesso a cargos dirigentes e de administração.
O deputado afirmou ainda que, vendo de fora, não considera os sindicatos como estruturas particularmente progressistas na sociedade portuguesa, pelo que o papel das mulheres é precisamente contrariar essa tendência.
 

Wanda Guimarães: "Estruturas têm de ser alteradas"

Após a homenagem, a sindicalista do SBSI mantinha a serenidade própria de quem deu tudo em prol da defesa dos trabalhadores

 
Febase - Como recebeu esta homenagem?
Wanda Guimarães - Nunca aceitei nenhuma homenagem porque achei sempre que a minha missão era fazer o melhor possível. Infringi esse princípio por ser uma iniciativa da UGT e da Comissão de Mulheres. Entendi que o devia fazer em nome de todas as mulheres, não só as que têm lugares de destaque nos sindicatos ou na Central mas sobretudo das mulheres anónimas que contribuíram, com grande empenho, trabalho e dedicação, para consolidar um projeto sindical que eu entendo ser fundamental na sociedade portuguesa.
 
P - Passou muitos anos ligada ao sindicalismo. Ainda ficou alguma coisa por fazer?
R - Nas questões da igualdade há um manancial enorme de coisas por fazer. Pese embora os muitos e importantes avanços que se deram depois do 25 de abril, a verdade é que quando lemos o documento [sobre a Igualdade, feito em 1983], ele levanta questões que subsistem. São problemas estruturais e só existe uma maneira: alterar profundamente as estruturas da sociedade. As pessoas têm de caminhar numa plenitude de direitos, em direção à tal comunidade paritária e humana.
 
P - Essa alteração ainda está longe?
R - Infelizmente está, e a crise veio agravar os problemas e trazer ao de cima as fragilidades de todo um sistema, que se traduzem num empobrecimento dos trabalhadores. As bolsas de pobreza foram sempre compostas, na sua maioria, por mulheres.

Na primeira pessoa

Assunção Esteves
Presidente da AR
"Admiro muito aqueles que fazem do seu trabalho um combate e o sindicalismo é a ligação entre o trabalho e o combate, é uma forma de política e a política é uma forma de sindicalismo de ideias, sempre para o desígnio final do bem comum. O combate exige-nos a todos uma entrega total, é isso que o sindicalismo tem feito em Portugal, não apenas no plano dos microcosmos empresariais mas também quando integram o grupo dos parceiros sociais."

 

Lucinda Dâmaso
Presidente da UGT
"Parabéns à Comissão de Mulheres por esta homenagem a um grupo de sindicalistas que nos lembra todas as outras que, com muito sofrimento, contribuíram para o crescimento e consolidação da UGT. Estas mulheres deram-nos e continuam a dar força, fazem-nos sentir que vale mesmo a pena lutarmos por aquilo em que acreditamos."

 

Lina Lopes
Presidente da CM da UGT
"É um orgulho fazer esta homenagem e posso agradecer a estas mulheres, porque foram elas que iniciaram esta carreira, foram elas que lutaram pelas mulheres. Só espero poder dignificar o nome delas e continuar a fazer o trabalho que elas fizeram."

 

Maria de Belém
Deputada do PS
"Aquilo que faz a força de qualquer movimento é a luta pela justiça, se não houver reconhecimento da justiça das causas pelas quais lutamos não conseguimos ganhar nenhuma. E a especificidade da situação das mulheres perante o trabalho, a família e a sociedade é uma luta própria que deve continuar a ter relevância."