SharePoint

Congresso da UNI elege Christy Hoffman

10/07/2018

A norte-americana que ocupava o cargo de vice-secretária-geral é agora a líder da UNI, eleita no Congresso mundial da organização, que decorreu em junho, em Liverpool. Philip Jennings sai de cena ao fim de 18 anos, entre muitos aplausos à sua carreira sindical

Inês F. Neto

Foi um Congresso tão importante quanto emotivo. Afinal, não é todos os dias que uma organização sindical mundial – que representa cerca de 20 milhões de trabalhadores dos serviços em mais de 150 países – se despede do seu líder de sempre e acolhe um novo.
O Congresso da UNI-Sindicato Global, que decorreu em Liverpool em junho, representou um virar de página.
Ao fim de 18 anos de construção e consolidação da organização, Philip Jennings deixou o cargo de secretário-geral e simbolicamente passou o testemunho à sua sucessora, eleita na reunião magna.

Negociação coletiva: a aposta

A norte-americana Christy Hoffman, recém-eleita secretária-geral da UNI teve um percurso intenso até chegar à liderança. Considerada uma excelente organizadora, estrategista e negociadora, destacou-se em muitos dos contratos globais da UNI com multinacionais e grandes empresas. A longa experiência no movimento sindical internacional e a sua visão renderam-lhe os votos dos congressistas para elevá-la ao novo cargo.
A sua liderança está enraizada na crença de que a aptidão dos trabalhadores e a negociação coletiva são as melhores respostas face a uma economia global defraudada, que prioriza empresas sobre as pessoas e o planeta.

“Vamos enfrentá-los”

A sua eleição representa um foco renovado na organização dos trabalhadores representados pela UNI e um novo desafio para os maus empregadores globais, de que a Amazon é um exemplo.
“Em todos os países, as pessoas que trabalham têm de enfrentar a ganância corporativa, a desigualdade, os baixos salários, os ataques à negociação coletiva e a ascensão de uma economia muitas vezes aliada à xenofobia e ao extremismo de direita,” frisou Christy Hoffman no seu primeiro discurso pós-eleição.
E continuou: “Vamos enfrentá-los. Nenhum trabalhador solitário, nenhum sindicato e nenhum país pode virar o jogo num mundo com corporações globais estabelecendo as regras do jogo, num modelo económico para poucos e não para muitos. E devemos fazer isso juntos.”

Corolário

Na despedida, o Congresso não poupou elogios a Philip Jennings, lembrando a sua vida dedicada ao sindicalismo e o trabalho árduo para tornar a UNI uma “potência” na defesa dos direitos dos trabalhadores. Tanto Christy Hoffman como a atual presidente UNI global, Ann Selin, bem como os seus colegas de todas as regiões, reforçaram o louvor.
Perante uma sala repleta – onde não faltou a mãe, presente para testemunhar a conclusão da sua brilhante carreira de sindicalista – Philip Jennings falou com o coração nas mãos.
Lembrou a jornada pessoal que o levou de Cardiff até à Suíça, com passagens por muitos locais do mundo onde foi preciso fazer ouvir a voz dos trabalhadores e lutar contra injustiças, como a Colômbia ou a Palestina.
Humilde, elogiou a influência de outros no seu percurso pessoal e profissional. "Com o vosso apoio, a minha vida tem sido rica, profunda e cheia de significado. Uma vida de propósito", reconheceu.
“Um homem não vive até que possa passar dos limites estreitos das suas preocupações individuais para as preocupações mais amplas de toda a humanidade”, acrescentou Philip Jennings, citando Martin Luther King.

Troca de votos

No momento de troca de testemunho entre líderes, Christy Hoffman presenteou Philip Jennings com a Freedom from Fear Award para uma vida de realizações, dando uma infinidade de exemplos de como ele se levantou pelos trabalhadores.
“Foi um campeão do movimento anti-apartheid, visitou a Coreia mesmo quando a polícia secreta lhe disse para deixar o país, fez frequentes viagens para a Cisjordânia e consolou a família enlutada do jovem Leonidas, um dos muitos sindicalistas colombianos assassinados na luta pelos direitos sindicais”, frisou a nova secretária-geral, acrescentando:
“Ainda mais impressionante é a coragem do Philip na guerra de ideias. Nunca teve medo de saltar para o fogo, seja frente a um CEO furioso com a crítica da UNI, seja contra a Fox News, líder da comunicação social de direita. Em entrevistas de televisão ou ao vivo, o Philip passa a nossa mensagem contra a agressão pura e simples do movimento sindical, que vem de todos os lados.”
Já Philip Jennings encorajou a nova liderança de Christy Hoffman a continuar a ser ambiciosa, salientando a sua plena confiança.
“Nunca vou parar de acreditar e sei que tu também não. Christy levará a chama da união mais alto, lutando para manter afastadas as dúvidas dos outros”, concluiu.


Da fábrica à liderança mundial

Christy Hoffman iniciou o seu percurso sindical em 1978, numa fábrica de motores a jato no Connecticut, onde foi eleita intendente-chefe das duas mil que ali trabalhavam. Juntou-se ao sindicato do setor, destacando-se como organizadora e percorreu diversas etapas na Associação Internacional de Maquinistas, um feito raro para uma mulher naquela época.
Ao longo do tempo desempenhou vários cargos sindicais nos Estados Unidos, nomeadamente apoiando diversas lutas como advogada, e em 2004 ingressou na UNI, onde o seu trabalho na negociação de convénios globais se distinguiu.
Depois de mais trabalho sindical no seu país, em 2010 regressou à UNI para assumir o cargo de vice-secretária-geral.
Nessa função, concentrou-se em fortalecer o poder dos trabalhadores em empresas multinacionais, apoiando o desenvolvimento de sindicatos a nível mundial. Cumpriu ainda um importante papel na melhoria dos quadros legais e institucionais, nomeadamente em diretrizes da OCDE.
Casada e com dois filhos, Christy Hoffman licenciou-se em Direito com louvor na Universidade de Nova York e tem um MBA em Economia pela Smith College.