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O delito do Mérito

10/07/2018

Faz sentido selecionar indivíduos para uma função com base no mérito próprio e na experiência adquirida?

Diogo Tavares

O sociólogo Michael Young publicou, em 1958, o seu ensaio “A Ascensão da Meritocracia”, e pela sátira deu a conhecer ao mundo uma sociedade hipotética, onde o mérito próprio ditava a posição de cada um na estratificação social. Na obra em si, o autor descreve uma sociedade distópica onde a inteligência e o mérito destacam-se como as pedras de toque para o funcionamento da sociedade, substituindo as divisões entre classes sociais por uma divisão entre os que alcançavam por mérito próprio uma posição de elite e as restantes subclasses sem mérito.
Mas não tenha dúvidas, caro leitor. Para o bem e para o mal, a nossa sociedade é uma de mérito, onde os mais capazes têm a oportunidade de avançarem para o sucesso mais facilmente que os outros, e eventualmente são sempre recompensados devidamente pelas suas contribuições para a sociedade. E faz todo o sentido selecionar indivíduos para uma função com base no mérito próprio e na experiência adquirida, certo?

Competição

O problema de uma sociedade com base no mérito é que a competição para conquistar uma posição alta nesta sociedade é exacerbada, elevando o nível mínimo de entrada para ser bem-sucedido para extremos absurdos.
Basta olhar para a forma como o ensino secundário completo tornou-se o mínimo dos mínimos para poder candidatar-se para posições de remuneração mínima. Isto são doze anos de vida e milhares de euros investidos, por pessoa, só para poder ser apto para se candidatar a ganhar o salário mínimo.
E isto nem sequer inclui os que são permitidos a continuar este investimento durante mais cinco anos para darem entrada e concluir o ensino superior. Ou os que vão ainda mais além, com doutoramentos e pós-graduações consecutivas, que vão chegar ao fim desta jornada com três décadas de vida pelas costas e com poucas garantias de que vão conseguir encontrar carreira fora das faculdades, e isto se não forem explorados em estágios não remunerados dentro das instituições académicas.
São muitas as histórias de estudantes universitários que não conseguem ingressar nas carreiras pelo qual estudaram para fazer parte e que acabam com trabalhos de baixa remuneração nas áreas da restauração ou marketing.

A grande mentira

Esta é a grande mentira, a de que os estudos são por si uma fórmula de sucesso para alcançar o mérito necessário ao sucesso, e quem siga os seus sonhos e ambições vai encontrar garantidamente o que procura no final do seu percurso formativo. Isto cria uma grande procura pelas melhores carreiras associadas a estas áreas académicas, e aumenta o nível de exigência para perseguir estas carreiras.
Em artigos anteriores já tinha apontado para a tirania dos currículos e das espectativas irrealistas que exigem a procura do melhor candidato e do mais capaz para toda e qualquer posição, independente das capacidades intrínsecas do mesmo.

Oportunidades

Mike Rowe analisa este fenómeno em detalhe no seu segmento “Não sigam as vossas paixões” e defende a posição que o melhor candidato para um trabalho não é o que se prepara mais tempo e mais eficazmente para executar determinada função, mas o que persegue as oportunidades para as quais demonstra aptidão apesar de não serem populares. Que mais determinante que os percursos que seguimos para alcançar as nossas metas são as aptidões naturais que cada um tem e que podem ser exploradas a longo prazo.
Escrevo por experiência própria, pois até eu já fui vítima deste processo. E como eu, colegas e amigos da minha geração que viam a faculdade como a meta final, e que tudo o resto viria com o tempo. Longe de sabermos que o que basta é uma oportunidade para provar o nosso mérito, e que procurar é bem melhor do que esperar.