
O furacão que assolou a banca nacional no pós-2010 terminou e com a calmaria também a sangria de efetivos parece ter sido estancada. Os dados estatísticos da APB sobre 2017 refletem um muito ligeiro crescimento do emprego no setor face ao ano anterior. Se representa uma inversão da tendência descendente ou é meramente conjuntural só o futuro dirá
Elsa Andrade
Se os números nos dizem alguma coisa, os dados da Associação Portuguesa de Bancos (APB) relativos a 2017 espelham uma ligeira inversão da tendência de destruição de postos de trabalho, com o crescimento do emprego em 1%, ou seja, mais 295 efetivos do que em 2016.
Se formos realistas, é uma ínfima gota num oceano de rescisões e despedimentos coletivos que retiraram da banca 10.480 bancários entre 2010 e 2017. Mas poderá significar um novo rumo…
A banca a operar em Portugal, em 2010, passava quase incólume pela crise que assolou os mercados globais e teve o epicentro precisamente nos grandes colossos financeiros. Resistiu sem falências, sem nacionalizações em massa (o BPN foi um caso especial), insolvências ou sequer degradação acentuada dos rácios médios de solvência. E em muitos casos os lucros, embora mais moderados, voltaram a abrilhantar os resultados.
Depois foi o descalabro. A banca nacional entrou em rotação livre com resultados muito negativos, perda de negócio, fragilidade de capital e má gestão. Os desaires sucederam-se: o BES implodiu, o Banif foi comprado à beira da falência e as grandes instituições a precisaram de ser salvas, com o apoio do Estado para a recapitalização. Alguns dos bancos estrangeiros retiraram-se do mercado nacional, como o Barclays e o Popular, que foi integrado no Santander.

Mais bancários
Face ao tumulto que o setor atravessava, a necessária redução de custos seguiu desde logo a medida prevista na “bíblia” da troika – aliás, imposta pela DGCom para o aval à recapitalização: redução dos quadros de efetivos.
Quase todos os bancos reduziram o número de trabalhadores, num volume nunca visto. Através de reformas antecipadas, rescisões de contrato (aquelas saídas denominadas “mútuo acordo” mas que levam o elo mais fraco a aceitar sem vontade) ou despedimentos coletivos, 19% da força de trabalho desapareceu entre 2010 e 2016.
Ou seja, dos 56.844 bancários em 2010, apenas 46.069 continuavam no setor em 2016. Por outras palavras, 10.775 trabalhadores deixaram o setor. E, sublinhe-se, estes números excluem o Banco de Portugal e a CGD.
E eis que chega 2017, o primeiro ano que apresenta um saldo positivo no emprego. A 31 de dezembro, a banca tinha 46.364 trabalhadores, mais 295 do que no mesmo período de 2016. No entanto, a variação entre 2010 e 2017 representava ainda -18% de trabalhadores, ou seja menos 10.480 trabalhadores.
Três das maiores instituições, pelo contrário, seguiram a tendência de redução de efetivos: BCP, Novo Banco e BPI. Entre eles, o BPI foi o que mais reduziu no ano passado: 561 trabalhadores (10% da força de trabalho). Relativamente a 2010, o banco tem menos 2.222 efetivos (-31%), sendo 4.996 o total de bancários.
Já o BCP, no final de 2017 tinha 7.120 trabalhadores: menos 138 (-2%) do que em 2016 e menos 2.905 (-29%) do que em 2010.
Por fim, o Novo Banco chegou ao final de 2017 com um total de 4.856 bancários, ou seja, menos 218 (-4%) do que no ano transato e menos 1.793 (-27%) do que em 2010.
Em sentido contrário, destacam-se o Montepio Geral e o Banco Santander Totta.
Nos anos em análise, o Montepio esteve sempre em crescimento (recorde-se que neste período absorveu o Finibanco): em 2010 tinha um total de 2.896 trabalhadores e no final de 2017 já somava 3.616, o que significa uma variação de 710 efetivos (25%). Relativamente a 2016, o banco reforçou os seus quadros em 44 bancários (1%).
O BST, que comprou o Banif e integrou o Banco Popular, aumentou os efetivos em 16% (935 trabalhadores), 8% dos quais (479) entre 2016 e 2017, totalizando 6.783 bancários.

Menos balcões…
Se no cômputo geral a redução de efetivos estancou, o mesmo não se pode dizer do número de balcões. Quando antes da crise os espaços eram disputados avidamente para abrir um novo balcão, no período em análise a situação era inversa. A ordem foi fechar, fechar, fechar… Dos 6.240 balcões existentes em 2010, restavam 4.411 em 2017, ou seja, menos 1.829 (-29%).
Nenhum distrito passou incólume, mas alguns foram mais afetados que outros. É o caso do de Lisboa, que entre 2010 e 2017 perdeu 532 balcões, ou seja, 35% do total. O distrito do Porto perdeu 313 balcões (-32%), o de Faro 117 (-33%), Setúbal ficou com menos 128 (-33%), Funchal menos 54 (-36%) e Angra do Heroísmo perdeu 15 balcões (-37% do total).
A instituição que mais balcões encerrou foi o BCP: 300 (-34%), sendo 40 deles (-6%) em 2017. Seguiram-se o Novo Banco, que fechou 270 (-38%), dos quais 59 (-12%) no ano passado, e o BPI, com o encerramento de 217 balcões (-29%), 30 em 2017 (-6%).
A alguma distância ficaram o Montepio, que apenas encerrou cinco balcões (-2%), três deles (-1%) em 2107, e as CCAM, com menos 15 (-4%), 13 dos quais (-2%) no ano passado.
O BST fechou 86 balcões (-12%) e, completamente em contraciclo, em 2017 abriu 37 balcões (6%).

… com mais pessoal
Já o número de trabalhadores por balcão aumentou ligeiramente entre 2010 e 2017, o que poderá ser explicado pela integração de bancários em novos locais devido ao encerramento dos balcões onde antes estavam colocados.
Assim, em 2010 havia nove trabalhadores por balcão, número que aumentou para dez em 2016 e para 11 em 2017, uma variação de 15% e 2%, respetivamente.

Homens ainda em maioria
No que diz respeito aos recursos humanos, embora os homens ainda estejam em maioria na banca, as mulheres aproximam-se.
Se em 2010 os bancários eram 30.611 e as bancárias 26.233, sete anos depois a força de trabalho masculina foi reduzida para 23.457 e a feminina para 22.907, encurtando a diferença de género.
No que diz respeito à faixa etária, os trabalhadores até aos 44 anos ainda são a maioria, mas os de mais idade aumentaram. Em 2010 a banca tinha 38.162 bancários com menos de 44 anos e 18.682 com idade superior; em 2017 já eram, respetivamente, 24.736 e 21.628.
O que se reflete também na antiguidade: em 2010, os trabalhadores que tinham até 15 anos de serviço eram 32.849, contra 23.995 com mais anos “de casa”; em 2017 os que tinham menos anos nas instituições diminuíram para 19.790 e os que tinham mais de 15 anos de trabalho na banca aumentaram para 26.574.

