
Causas, consequências, desafios, oportunidades. A digitalização do trabalho, especialmente no setor bancário, esteve em debate por iniciativa do Grupo Ação de Mulheres do SBSI. Mas nem só análise e reflexão preencheu o fim-de-semana. O GRAM sabe como organizar um encontro
Inês F. Neto
“A digitalização tem género?” foi o tema do Encontro anual do GRAM em 2019, que decorreu de 29 de novembro a 1 de dezembro, na Costa de Caparica. Juntou muitas sócias, mas eles não faltaram e acompanharam com interesse as atividades.
Cristina Trony (coordenadora), Teresa Pereira e Eugénia Silva não deixaram por mãos alheias a organização e pensaram em tudo, da escolha dos oradores à animação para os diversos momentos livres. Houve música ao vivo e até uma sessão de aconselhamento de maquilhagem. A opinião geral foi de satisfação, alguns elegendo mesmo este como o melhor Encontro anual.
Desafio
Na sessão inaugural, Cristina Trony lembrou o tempo em que na banca os registos eram feitos à mão, e que quando em 1991 entrou para a CGD os computadores ainda eram de ecrã preto. “As agências tinham 30 bancários, hoje têm quatro ou cinco e tudo é feito digitalmente”, disse, dando assim o mote para “trocarmos impressões sobre a era digital”.
Referindo-se ao tema do Encontro – “A digitalização tem género?”, o presidente da Direção considerou que “o processo de digitalização afeta tanto as mulheres como os homens”.
“As mulheres têm aqui uma oportunidade ímpar, porque são em maior número, porque estudam mais e estão melhor preparadas. A digitalização é uma oportunidade para inverter o seu papel na sociedade e não devem perdê-la”, frisou.
No plano laboral, este é “um desafio para as próximas décadas”, considerou Rui Riso, acrescentando: “O grande desafio é reinventar o papel do trabalho na sociedade e consequentemente na repartição de riqueza.”
A velocidade da mudança obriga-nos a reagir diariamente, alertou o presidente da Direção. “Tudo está em mudança e devemos aproveitá-la para melhorar a nossa qualidade de vida. Voltaremos a conseguir que a próxima geração viva melhor que a anterior?”
“A realidade é complexa, mas sabe muito bem viver numa sociedade em transformação, participando nela de forma determinada e determinante”, concluiu Rui Riso.

Crescimento exponencial
“A digitalização na atividade bancária” foi o tema do primeiro painel e teve como orador Sérgio Melro, engenheiro de sistemas e administrador da AdvanceCare.
Falando sumariamente no progresso digital, Sérgio Melro referiu o “crescimento exponencial da computação”, aumentando a escala e descendo o preço. Em 2010, cerca de 23% da população mundial tinha acesso à internet; em 2020 será já de mais de 60% e a perspetiva para 2030 é de 100%.
“Há muita coisa a acontecer e o poder computacional é cada vez mais poderoso: redes, robótica, software, impressão 3D… e em áreas como biologia, materiais, realidade virtual, inteligência artificial”, explicou.
“Nada vai parar este movimento, por isso é melhor adaptarmo-nos”, disse, acrescentando: “A mudança é disruptiva, acontece todos os dias, é constante, e não podemos ver o desenvolvimento como uma ameaça, mas como uma oportunidade.”
Desafios à banca
Referindo-se concretamente ao setor financeiro, o especialista considerou as Fintech e as IT como desafios à banca tradicional, sublinhando que 60% dos chamados Millennials (a geração do milénio) “só querem interação digital”.
“Os clientes são mais exigentes, querem coisas simples mas completas, mais resposta, funcionamento por 24 horas e novidades. O fecho de balcões é resultado disto e das fusões na banca”, frisou.
Esta realidade exige a reconversão dos trabalhadores, que podem ser ajudados por estes meios. “Há números e casos concretos que provam isso”, disse, dando como exemplo que 50% dos clientes aceitam bem interações digitais e os bancários acham normal e aceitam. “Em 2017, cerca de 51% da população da União Europeia utilizava os serviços de homebanking, enquanto em Portugal se ficava por 30%. Mas 70% dos Millennials utilizam o homebanking ou algo mais sofisticado”, frisou.

Bancos
online
Outro desafio à banca tradicional pode vir de gigantes da tecnologia e da distribuição, que vão avançar no setor: Walmart, Apple, Amazon, Google, Facebook, Alibaba.com. “Gigantes que são já demasiado grandes para a economia.”
Na Europa existem já centenas de bancos digitais. “Um banco na Alemanha ou no Reino Unido, se tiver autorização para operar em Portugal não teria aqui nenhum trabalhador”, frisou Sérgio Melro.
“Estes bancos têm estruturas de custos muito baixas: não têm agências, nem sequer um número de telefone”, acrescentou.
“O que a banca tradicional deve fazer é entrar neste mundo, para não perder clientes – e está a fazê-lo”, alertou.
Impacto de género
Relativamente ao impacto do género na tecnologia, o especialista referiu um estudo da OCDE que coloca Portugal no topo, com 60% de mulheres formadas em ciências, matemática e computação. Mas ao contrário, “a disparidade na remuneração entre homens e mulheres em Portugal é maior do que a média da OCDE.”
Ao nível da escolaridade, “as mulheres são mais no escalão inferior e no número de licenciados” e começam a entrar em força nos cursos de engenharia e biomédica, mas em informática rondam os 20%.
“Há um conjunto de novos perfis profissionais que vão ser necessários no futuro e a força de trabalho deve ser reconvertida, com novas competências para responder às novas funções”, concluiu Sérgio Melro.
Impacto no trabalho |
Sérgio Melro citou um estudo recente para afirmar que duas mil funções podem ser automatizadas.
A automatização no trabalho tem impacto em vários aspetos: - Tempo – ao contrário dos humanos, não tem férias, não fica doente, não dorme; - Rapidez – nas tarefas repetitivas os trabalhadores podem ser substituídos por robôs e essa é “uma realidade incontornável”; - Escala – é fácil aumentar o número de robôs: basta replicar programas; - Qualidade – é banido o erro humano; - Segurança – a segurança de dados está salvaguardada. |
Algoritmo discriminador

A digitalização não tem género, mas o seu impacto sim: na formação, nos novos empregos, nos cargos de direção. Debate a três vozes sobre como acontece a discriminação e como combatê-la
O segundo painel do Encontro foi um debate entre três mulheres e teve como mote “de que forma a digitalização afeta os géneros”. Participaram Dalila Araújo (gestora de projetos sénior da IBM), Madalena Roseta (administradora da IBM) e Vera Silva (consultora sénior da Capgemini). A moderação esteve a cargo de Lúcia Macau, jornalista da UGT.
A participação do público foi grande, com muitas perguntas colocadas às oradoras.
“Com a introdução das TIC, as mulheres são discriminadas nos postos de trabalho? São substituídas por máquinas em detrimento dos homens?”. Foi com esta questão que Lúcia Macau abriu o debate.
Erro discriminatório
“A digitalização não tem género, mas os programas que introduzimos podem ter, pois há muitas coisas dominadas por algoritmos”, afirmou Madalena Roseta, enunciando alguns casos: no algoritmo de reconhecimento facial observou-se quase 40% de erro no caso de mulheres negras; no cartão de crédito de limite variável da Apple chegou-se- à conclusão que o algoritmo desfavorecia as mulheres; na Amazon, o algoritmo de recrutamento discriminava os currículos de mulheres e mesmo depois de alterado o problema subsistia. A empresa teve de desligar o algoritmo.
“Se começarmos a robotizar sem percebermos como chegam a determinadas conclusões, a discriminação pode ser ainda maior”, alertou.

Chegar ao topo
Dalila Araújo foi contundente ao observar que “o impacto da digitalização tem género”: na formação, no mercado das tecnológicas e nos novos empregos.
Em Portugal, as mulheres estão em maioria entre os diplomados em ciências, mas sub-representadas nas TIC, onde os salários são mais elevados.
“Apenas 11% dos cargos de CEO são ocupados por mulheres”. A percentagem sobe para 17% nas tecnológicas, mas apenas nas startup, pois “nas grandes empresas elas estão nas bordas da administração, como nos Recursos Humanos”, especificou.
E, advertiu, começa a desenhar-se a tendência de a digitalização entrar em áreas tradicionais como os têxteis, calçado, call centers, serviços administrativos – onde os postos de trabalho são maioritariamente ocupados por mulheres.
Pelo contrário, Vera Silva, que desenvolveu atividade na banca até há quatro anos ingressar na Capgemini, optou por frisar as vantagens do trabalho remoto possibilitado pela digitalização. “Dá-me flexibilidade, tanto no tempo como no espaço”, sublinhou.
Banca já está a mudar
A digitalização da banca é já uma realidade. O setor está a mudar e vai mudar ainda mais. Será uma ameaça?
Para Vera Silva, é preciso “acompanhar a mudança”, porque todos os bancos estão a renovar-se. “A palavra-chave do digital é cooperação”, considerou.
Madalena Roseta, por sua vez, aconselhou cautela. A IBM trabalha muito com bancos e para aceder a dados que estão introduzidos num determinado programa tem estado “a recorrer a reformados porque já ninguém sabe trabalhar com esse programa”, revelou.
“Os sistemas core da banca não mudam há anos e algumas experiências tiveram de ser revertidas”, lembrou, acrescentando: “O digital agora não é uma ameaça para a banca, não é para já.”
Transição
Contrariando a opinião da oradora anterior, Dalila Araújo considerou que “os bancos já mudaram e vão continuar a mudar”.
“Os bancos têm muita informação que lhes permite desenvolver o seu negócio em áreas não tradicionais e sem dúvida a digitalização vai impactar”, disse, acrescentando que diversos estudos apontam o setor bancário como um dos mais impactados pela digitalização”.
Em sua opinião, a mudança “é uma transição, não é disruptiva. Qualquer negócio vai manter por um tempo o acesso físico”.
Até porque, considera, “a mentalidade de reformar trabalhadores aos 50 anos já mudou e as empresas estão a chamar os trabalhadores seniores”. Exemplo disso é a Altice, que “foi buscar os engenheiros que tinha dispensado há pouco tempo”.
Também Madalena Roseta assumiu a mudança do setor financeiro, mas mostrou-se convicta da mais-valia do contacto com o cliente. “É preciso acompanhar os clientes, que terão muita dificuldade em seguir as mudanças.”
Vera Silva abordou a necessidade da formação. “A pessoa tem de ser proativa, falar com os recursos humanos para saber quais as formações disponíveis, além de procurar a sua própria formação.”

As pessoas, sempre
No encerramento da sessão, Rui Riso recordou que os bancários conhecem o pior da mudança: encerramento de balcões e despedimento de pessoas.
Deu como exemplo a Dinamarca e Espanha no apoio aos trabalhadores dispensados. “São acompanhados durante um ano por uma empresa, contratada pela que quer despedir, dando-lhes formação e acompanhamento até à colocação num novo posto de trabalho. Em Portugal não há nada disto.”
E criticou a APB por não cumprir o programa de formação ao longo da vida que subscreveu a nível europeu.
O presidente do SBSI referiu ainda um estudo dinamarquês sobre a relação dos Millennials com a banca. “Perceberam que não sabem nada sobre finanças e querem uma pessoa com quem falar e não estarem sujeitos a um algoritmo.”
E terminou com uma mensagem de mudança. “Esperamos estar cá daqui a um ano, com o GRAM ou com a Comissão para a Igualdade prevista nos novos Estatutos.”
E o lazer, também |
 Não só de debate e reflexão viveu o Encontro. O GRAM organizou diversos momentos de lazer: uma mostra de cosméticos com direito a lição de maquilhagem, a atuação de um grupo de bailarinos, um jantar que obrigava a traje em preto e vermelho e música ao vivo com o cantor brasileiro Almir Moreno. |
