Utopia
Se eu pudesse construía No alto de uma colina Uma casa pequenina Onde chegasse a maresia.
Cercava-a toda de buxo, Pintava-a da cor da Lua, Por dentro deixava-a nua De adornos vãos e de luxo.
Mobília? Só um colchão, Uma mesa, um oratório, Um banco e um lavatório, Uma arca e um fogão.
Punha um poço no quintal, Capoeiras p´rás galinhas, Verduras, frutas e vinhas, Um jardim e um roseiral.
De manhã cavava a horta, P’lo calor dormia a sesta, E à tardinha via a festa Do sol-pôr, sentado à porta.
À noite, à luz da lareira,
Com o cão deitado aos pés, Lia dois versos ou três E sonhava a noite inteira.
E quando ao romper da aurora, Colhesse um beijo daquela A quem eu amo, partia Vogando no céu com ela.
José Correia Sócio n.º 4506 | Onde estavas tu
Afinal onde estavas tu Quando o sol ao amanhecer Brilhou nas ondas do Mar?...
Onde estavas tu Quando o vento uivando De permeio, na encosta do monte, Cortava as flores silvestres Que fazem de ti uma beleza?
Onde estavas tu Ao esqueceres a areia do Mar Onde os peixinhos adornaram Ao calor do Sol florescente Do meu acordar?...
Sei que a vida é uma flor Que não pode esmorecer Para saberes apreciar O esplendor de tão grande amor!
Afinal quem sou eu, Quem és tu, Quem somos nós?...
António Jorge Ramos Sócio n.º 3487 |
Felicidade
Rebusco palavras que ignoro, Procuro ideias consistentes. Aos deuses auxílio imploro, Estou preso entre correntes.
Olho o teto e tudo se esvai, Vejo-me só, sinto-me vazio, Todo o mal sobre mim cai, Vivo do mundo ao arrepio.
Soubesse onde te encontrar, Correria em gesto de loucura, Impulsos em mim a vibrar, Buscando carinho e ternura.
Porém, de ti, nenhum sinal, Nem simples acenar de mão. Foi-se o bem, ficou o mal, Vivo angustiado na solidão.
Uns dizem que te acharam, Outros sentem-se como eu. Afinal, onde te encontraram, Foi na terra ou lá no céu
Escuta a minha trémula voz, Atende-me, mas sem piedade! Liberta-me desta dúvida atroz: Tu existes ou não, Felicidade?...
Pires da Costa Sócio n.º 10395 | A água
A Água! Esse líquido precioso Mais, do que o ouro, valioso A que nunca demos muita importância Por cair do céu com abundância
Caía devagar, ritmada, parecendo um bailado Para matar a sede, a todos, suavemente Durante dias, ou meses
Agora, caí abruptamente, em horas, o que caía num ano Revoltada, agressiva, mata, destrói tudo o que lhe aparece à frente É uma torrente impetuosa a castigar tudo e todos!
Tão necessária e desejada Agora, chega, quase sempre, desesperada Parece que se cansou de ser ignorada Desprezada, maltratada
Tanto animal e planta desesperado com a sua ausência Os humanos, mais evoluídos, procuram-na a centenas de metros de profundidade
Os outros rezam para que volte Dela, depende a vida Sem ela, teremos agonia e morte.
José Silva Costa
Sócio n.º 17296 |
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Prece a Nossa Senhora do Almurtão
Senhora do Almurtão Nossa filha é Enfermeira Optou p’la emigração Pensamos que fez asneira.
Se nós tivermos razão A nossa filha virá Senhora do Almurtão Ela emprego arranjará.
Nossa filha Manuela Trabalha no Reino Unido Que volte p’ra Terra dela É esse o nosso pedido.
Vós que sempre nos ouvistes Dai-lhe a vossa proteção Nós andamos muito tristes Senhora do Almurtão.
E quando à vossa Capela Nós formos agradecer Rezaremos p´ra que ela Cá possa permanecer.
Tomé Correia Sócio n.º 11532 | Saudade e pequena homenagem
Flor da rosa o meu berço A terra aonde eu nasci Nunca mais te esqueço E estou sempre a pensar em ti
Quando vou ao meu Alentejo Ver as giestas em flor É lindo sem tejo Tudo aquilo é um amor
À noite e sem conseguir dormir Sinto o cheiro imaculado Do meu Alentejo a sorrir Tão lindo e há muito abandonado
Querida aldeia dos meus amores De mim nada nunca te esqueceu O teu nome teve duas flores Que de uma paixão nasceu
Ó flor da rosa do passado Foste amada até por escritores Merecidos ter um outro fado E não tantos traidores
José Marques Silvestre Sócio n.º 8129 | Poema da verdade e do descrédito
Procuro a ventura, Só vejo tristeza, Rostos de amargura, Pobreza!
As leis feitas “à maneira”, Secaram nossa algibeira. Brutal!
Sem demora, Os novos, forçados a partir, Foram-se embora. Ponto final!
Estou confuso. Perdi-me. Não sei onde me encontro. Medito. Se me disserem que isto é Portugal, Não acredito.
João Manuel Alexandre Alves Sócio n.º 7647 |
Vejo um povo entristecido
Vejo um povo entristecido
No meio de tanto bandido E pergunto para mim: Porque é que o meu povo sofre? É por receber de chofre Tanta notícia ruim
Mostrando um ar abatido Vejo um povo entristecido
Sem vontade de sorrir… E fico desalentado Pensando preocupado: Como será o porvir
Olhando por todo o lado Com seu ar amargurado Vejo um povo entristecido
E sem ter grande surpresa, Percebo a sua tristeza Oiço o seu triste gemido
Roubaram-lhe “o mês de Abril” E as promessas, mais de mil, Presto lhe foram furtadas; Vejo um povo entristecido
Abandonado ao olvido E as mãos cheias de nadas…
Vendo decrescer a féria Com reforma de miséria E a fome ao canto do lar, Não fazendo alarido Vejo um povo entristecido
Sem vontade de lutar…
A esperança não falece E qualquer dia aparece Voltando a fazer sentido! Quem me dera poder crer Que nunca mais vou dizer: Vejo um povo entristecido
Fernando Máximo Sócio n.º 21274 |