SharePoint

A imaginação é o limite

28/01/2020


Os associados do SBSI têm nesta página oportunidade de publicar poemas, pequenos contos e desenhos da sua autoria. A seleção das obras enviadas rege-se por critérios editoriais. Os textos para publicação não podem exceder os dois mil carateres

Utopia

Se eu pudesse construía
No alto de uma colina
Uma casa pequenina
Onde chegasse a maresia.

Cercava-a toda de buxo,
Pintava-a da cor da Lua,
Por dentro deixava-a nua
De adornos vãos e de luxo.

Mobília? Só um colchão,
Uma mesa, um oratório,
Um banco e um lavatório,
Uma arca e um fogão.

Punha um poço no quintal,
Capoeiras p´rás galinhas,
Verduras, frutas e vinhas,
Um jardim e um roseiral.

De manhã cavava a horta,
P’lo calor dormia a sesta,
E à tardinha via a festa
Do sol-pôr, sentado à porta.

À noite, à luz da lareira,
Com o cão deitado aos pés,
Lia dois versos ou três
E sonhava a noite inteira.

E quando ao romper da aurora,
Colhesse um beijo daquela
A quem eu amo, partia
Vogando no céu com ela.

José Correia
Sócio n.º 4506
Onde estavas tu

Afinal onde estavas tu
Quando o sol ao amanhecer
Brilhou nas ondas do Mar?...

Onde estavas tu
Quando o vento uivando
De permeio, na encosta do monte,
Cortava as flores silvestres
Que fazem de ti uma beleza?

Onde estavas tu
Ao esqueceres a areia do Mar
Onde os peixinhos adornaram
Ao calor do Sol florescente
Do meu acordar?...

Sei que a vida é uma flor
Que não pode esmorecer
Para saberes apreciar
O esplendor de tão grande amor!

Afinal quem sou eu,
Quem és tu,
Quem somos nós?...

António Jorge Ramos
Sócio n.º 3487
Felicidade

Rebusco palavras que ignoro,
Procuro ideias consistentes.
Aos deuses auxílio imploro,
Estou preso entre correntes.

Olho o teto e tudo se esvai,
Vejo-me só, sinto-me vazio,
Todo o mal sobre mim cai,
Vivo do mundo ao arrepio.

Soubesse onde te encontrar,
Correria em gesto de loucura,
Impulsos em mim a vibrar,
Buscando carinho e ternura.

Porém, de ti, nenhum sinal,
Nem simples acenar de mão.
Foi-se o bem, ficou o mal,
Vivo angustiado na solidão.

Uns dizem que te acharam,
Outros sentem-se como eu.
Afinal, onde te encontraram,
Foi na terra ou lá no céu

Escuta a minha trémula voz,
Atende-me, mas sem piedade!
Liberta-me desta dúvida atroz:
Tu existes ou não, Felicidade?...

Pires da Costa
Sócio n.º 10395
A água

A Água! Esse líquido precioso
Mais, do que o ouro, valioso
A que nunca demos muita importância
Por cair do céu com abundância

Caía devagar, ritmada, parecendo um bailado
Para matar a sede, a todos, suavemente
Durante dias, ou meses

Agora, caí abruptamente, em horas, o que caía num ano
Revoltada, agressiva, mata, destrói tudo o que lhe aparece à frente
É uma torrente impetuosa a castigar tudo e todos!

Tão necessária e desejada
Agora, chega, quase sempre, desesperada
Parece que se cansou de ser ignorada
Desprezada, maltratada

Tanto animal e planta desesperado com a sua ausência
Os humanos, mais evoluídos, procuram-na a centenas de metros de profundidade

Os outros rezam para que volte
Dela, depende a vida
Sem ela, teremos agonia e morte.

José Silva Costa
Sócio n.º 17296
Prece a Nossa Senhora do Almurtão

Senhora do Almurtão
Nossa filha é Enfermeira
Optou p’la emigração
Pensamos que fez asneira.
                 
Se nós tivermos razão
A nossa filha virá
Senhora do Almurtão
Ela emprego arranjará.
                 
Nossa filha Manuela
Trabalha no Reino Unido
Que volte p’ra Terra dela
É esse o nosso pedido.
                 
Vós que sempre nos ouvistes
Dai-lhe a vossa proteção
Nós andamos muito tristes
Senhora do Almurtão.
                 
E quando à vossa Capela
Nós formos agradecer
Rezaremos p´ra que ela
Cá possa permanecer.
                 
Tomé Correia
Sócio n.º 11532
Saudade e pequena homenagem

Flor da rosa o meu berço
A terra aonde eu nasci
Nunca mais te esqueço
E estou sempre a pensar em ti

Quando vou ao meu Alentejo
Ver as giestas em flor
É lindo sem tejo
Tudo aquilo é um amor

À noite e sem conseguir dormir
Sinto o cheiro imaculado
Do meu Alentejo a sorrir
Tão lindo e há muito abandonado

Querida aldeia dos meus amores
De mim nada nunca te esqueceu
O teu nome teve duas flores
Que de uma paixão nasceu

Ó flor da rosa do passado
Foste amada até por escritores
Merecidos ter um outro fado
E não tantos traidores

José Marques Silvestre
Sócio n.º 8129
Poema da verdade e do descrédito

Procuro a ventura,
Só vejo tristeza,
Rostos de amargura,
Pobreza!
              
As leis feitas “à maneira”,
Secaram nossa algibeira.
Brutal!
              
Sem demora,
Os novos, forçados a partir,
Foram-se embora.
Ponto final!
              
Estou confuso.
Perdi-me.
Não sei onde me encontro.
Medito.
Se me disserem que isto é Portugal,
Não acredito.
              
João Manuel Alexandre Alves
Sócio n.º 7647
Vejo um povo entristecido

Vejo um povo entristecido
No meio de tanto bandido
E pergunto para mim:
Porque é que o meu povo sofre?
É por receber de chofre
Tanta notícia ruim
              
Mostrando um ar abatido
Vejo um povo entristecido
Sem vontade de sorrir…
E fico desalentado
Pensando preocupado:
Como será o porvir
              
Olhando por todo o lado
Com seu ar amargurado
Vejo um povo entristecido
E sem ter grande surpresa,
Percebo a sua tristeza
Oiço o seu triste gemido
              
Roubaram-lhe “o mês de Abril”
E as promessas, mais de mil,
Presto lhe foram furtadas;
Vejo um povo entristecido
Abandonado ao olvido
E as mãos cheias de nadas…
              
Vendo decrescer a féria
Com reforma de miséria
E a fome ao canto do lar,
Não fazendo alarido
Vejo um povo entristecido
Sem vontade de lutar…
              
A esperança não falece
E qualquer dia aparece
Voltando a fazer sentido!
Quem me dera poder crer
Que nunca mais vou dizer:
Vejo um povo entristecido
                                         
Fernando Máximo
Sócio n.º 21274